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Mostrando postagens de abril, 2018

Mas não é apenas um pesadelo

J. Cícero Gomes Tudo o que eu queria agora é poder olhar para todo esse caos, toda essa dor, toda essa devassa... E poder dizer ao meu filho é só um pesadelo, e que logo tudo irá passar. Queria poder abraça o meu vizinho não importando sua ideologia, credo ou sua cor... Mas a vida por aqui anda tão louca, as pessoas andam destilando ódio atoa.  Quem se dizia meu amigo já não é... Tudo o que eu queria agora Era ter o meu país de volta Onde eu me iludia que vivia Numa democracia racial.   Como eu gostaria de ver a classe média feliz Porque a distância entre ela e os mais pobre diminuiu. Mas o que vemos é ódio e rancor. Porque os médios não desejam tal aproximação, Eles almejam uma aproximação com os mais ricos; Com os mais pobres apenas distância. Tudo que eu mais queria era poder dizer ao meu filho que tudo isso não passa de um pesadelo E logo irá raia um novo dia, ...

Eu-Zumbi

* Adão Venturo  Rei de Palmares tenho terreiros e tambores e danço a dança do Sol. Eu-Zumbi enfrento o vento que ainda tarda dessas cartas de alforria. Eu-Zumbi jogo por terra a caneta de ouro de todas as Leis-Áureas. Eu-Zumbi Rei de Palmares Tenho terreiros e tambores e danço a dança do Sol. . . .

PAISAGENS DO JEQUITINHONHA

Adão Venturo Quem dança no vento no ventre das águas do Jequitinhonha? Quem percorre o leve de breves passos nas margens do Araçuaí? Quem detém dos pássaros o ziguezaguear de vôos recompondo sombras sobre lixívias e lavras de Chapada do Norte? Quem imprime em argila a singeleza dos gestos dos artesãos de Minas Novas?
* Adriana Cortac Eu ontem fui tão tempestuoso Bem, eu não achava que perderia nada! E eu não acreditei ficar no céu  Não fui um ladino. Mas, gradualmente, acalmou-se a tempestade E houve uma chuva úmida. Choro aliviado como se fosse minha mão, Deus levou toda minha dor. E agora estou tão quieto quanto é Eu estava secretamente envolvido em silêncio, De memória, no entanto, Como uma floresta fuma a dor. E o vapor fumegante E eles estão se reunindo dentro de vazios A alma é sorvida como uma esponja E eu sei que amanhã será uma tempestade novamente.

Meu nome é nome de mar

*  Manuel Alegre Meu nome é nome de mar Onde o longe é mais visível Nome de sonho embarcado Para um amor impossível; Meu nome é nome de mar Meu nome é nome de vento Escrito na areia, na espuma E na flor do pensamento Que é luz por dentro da bruma; Meu nome é nome de vento Meu nome é nome de fado Nome de casa e de rua Nome de encontro marcado Na outra face da lua; Meu nome é nome de fado

AGORA

Adão Ventura É hora de amolar a foice e cortar o pescoço do cão. — Não deixar que ele rosne nos quintais da África. É hora de sair do gueto/eito senzala e vir para a sala — nosso lugar é junto ao Sol.

A Felicidade

Vinicius de Moraes Tristeza não tem fim Felicidade sim A felicidade é como a pluma Que o vento vai levando pelo ar Voa tão leve Mas tem a vida breve Precisa que haja vento sem parar A felicidade do pobre parece A grande ilusão do carnaval A gente trabalha o ano inteiro Por um momento de sonho Pra fazer a fantasia De rei ou de pirata ou jardineira Pra tudo se acabar na quarta-feira Tristeza não tem fim Felicidade sim A felicidade é como a gota De orvalho numa pétala de flor Brilha tranquila Depois de leve oscila E cai como uma lágrima de amor A felicidade é uma coisa boa E tão delicada também Tem flores e amores De todas as cores Tem ninhos de passarinhos Tudo de bom ela tem E é por ela ser assim tão delicada Que eu trato dela sempre muito bem Tristeza não tem fim Felicidade sim A minha felicidade está sonhando Nos olhos da minha namorada É como esta noite, passando, passando Em busca da madrugada Falem baixo, por favor Pra que ela acorde ...

Poética

Vinicius de Moraes De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte. Outros que contem Passo por passo: Eu morro ontem Nasço amanhã Ando onde há espaço: – Meu tempo é quando.

Dialética

Vinicius de Moraes É claro que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo E tenho tudo para ser feliz Mas acontece que eu .  sou triste..

Manhã

Manhã  Vladimir Maiakovski Olhava a sóbria chuva Pela Grade de ventilação Um claro Fio de pensamento férreo Colchão de penas E Ela.   __________ MAIAKOVSKI , Vladimir Vladimirovitch. Утро (Manhã) Fonte: http://slova.org.ru/mayakovskiy/index/ tradução do prof. José Cícero Gomes

O que aconteceu

Vladimir Maiakovski Mais do que é permitido, mais do que é preciso, como um delírio de poeta sobrecarregando o sonho: a pelota do coração tornou-se enorme, enorme o amor, enorme o ódio. Sob o fardo, as pernas vão vacilantes. Tu o sabes, sou bem fornido, entretanto me arrasto, apêndice do coração, vergando as espáduas gigantes. Encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordas, encho-me mais e mais.

VLADIMIR MAIAKOVSKI

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(ВЛАДИМИР МАЯКОВСКИЙ) O russo Vladimir Maiakovski é popularmente conhecido como O Poeta da Revolução. Além de ser um dos maiores poetas do século XX, ele era dramaturgo e teórico. Quer conhecer um pouco mais sobre ele? Veja alguns de seus poemas mais famosos e mergulhe no universo dele.

No caminho com Maiakóvski

            Eduardo Alves da Costa, no livro Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakóvski. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz; e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos. No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasi...
Ricardo Reis Quando há alguma coisa de belo a dizer em vida, esculpe-se; quando há alguma coisa de belo a dizer em alma, faz-se versos. A prosa é para a correspondência – quer a correspondência particular, quer a correspondência geral, chamada literatura. A poesia não é literatura: é Arte _______ Ricardo Reis, foi criado em 1913, Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, deu voz aos poemas de índole pagã inspirados na cultura greco-latina. – Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990, p. 410.

Eu, pássaro preto

Adão Ventura eu, pássaro preto, cicatrizo queimaduras de ferro em brasa, fecho o corpo de escravo fugido e monto guarda na porta dos quilombos. ____________ VENTURA, Adão em "Cor da pele". 5ª ed., Belo Horizonte: Edição do Autor, 1988.  

Para Ti

Foi para ti que desfolhei a chuva para ti soltei o perfume da terra toquei no nada e para ti foi tudo Para ti criei todas as palavras e todas me faltaram no minuto em que talhei o sabor do sempre Para ti dei voz às minhas mãos abri os gomos do tempo assaltei o mundo e pensei que tudo estava em nós nesse doce engano de tudo sermos donos sem nada termos simplesmente porque era de noite e não dormíamos eu descia em teu peito para me procurar e antes que a escuridão nos cingisse a cintura ficávamos nos olhos vivendo de um só amando de uma só vida. Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"  
      Gente que mantém       pássaros na gaiola       tem bom coração.       Os pássaros estão a salvo       de qualquer salvação.        Paulo Leminski
      "La poesía no quiere adeptos,        quiere amantes."  Federico García Lorca

O Vivo

Augusto de Campos Não queiras ser mais vivo do que és morto. As sempre-vivas morrem diariamente Pisadas por teus pés enquanto nasces. Não queiras ser mais morto do que és vivo. As mortas-vivas rompem as mortalhas Miram-se umas nas outras e retornam (Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!) Para amassar o pão da própria carne. Ó vivo-morto que escarnecem as paredes, Queres ouvir e falas. Queres morrer e dormes. Há muito que as espadas Te atravessando lentamente lado a lado Partiram tua voz. Sorris. Queres morrer e morres.

FOI PRA SEMPRE

José Cícero Gomes Eu já tentei viver sem você algumas vezes E falei algumas vezes que não queria mais você E aí você sorriu de um jeito que só você sabe fazer    Aí já estava preso em seus braços outra vez. Me convenci que era impossível viver sem você E que você era a minha Psiquê amazônica E aí você me faz um chamego de um jeito que só você sabe fazer   Aí já estava preso em seus braços outra vez. Quem já não sofreu por amor se até Eros Porque não eu rude poeta Eu olhei pra você meu coração disparou Antes da você resolve que iria ser minha cicerone nesta vida já era pra esse Cícero, Aí já estava preso em seus braços e pra sempre. E eu com medo de me entregar mas já era. Quando vi eu já estava preso em seus braços pra sempre. O seu cheiro, seus pelos, sua pele, seu toque e seus beijos são tudo pra mim, Porque não sei viver sem tudo isso Eu não consigo negar que não amor você E é só você me olhar de um jeito atrevido que já era Estou em...

Satisfação pequeno burguesa

Pobre pseudo burguês, um ser ignóbil de uma classe média estupida. Não vê além do próprio umbigo. Sentado diante da TV, num sofá da sala de seu triste lar sorumbático em uma tarde de domingo Em quase êxtase porque um líder operário Fora condenado sem provas e sem presunção de inocência. Pobre de direita Típico filho da geração Coca-cola Que não se identificam com o povo que sofre Porque tal atitude é pequena em sua concepção É de pequenas pessoas, logo ele tem uma quase satisfação sexual Porque aquele show midiático diante de se em seu monitor de TV Vem dar sentido ao seu ódio quase visceral por aquele líder operário Que neste momento ele vê condenado.  Pobre pequeno burguês, apropria-se do discurso e dos sonhos de seus algozes. Sonha com um dia que será como o seus algozes, não sonha com liberdade e igualdade, e nem tão pouco com justiça social. Mas com privilégios pessoais. Pobre de espírito, de espírito pequeno burguês acord...
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*   Patativa de Assaré Cante lá, que eu canto cá Poeta, cantô de rua, Que na cidade nasceu, Cante a cidade que é sua, Que eu canto o sertão que é meu. Se aí você teve estudo, Aqui, Deus me ensinou tudo, Sem de livro precisá Por favô, não mêxa aqui, Que eu também não mexo aí, Cante lá, que eu canto cá. Você teve inducação, Aprendeu munta ciença, Mas das coisa do sertão Não tem boa esperiença. Nunca fez uma paioça, Nunca trabaiou na roça, Não pode conhecê bem, Pois nesta penosa vida, Só quem provou da comida Sabe o gosto que ela tem. Pra gente cantá o sertão, Precisa nele morá, Tê armoço de fejão E a janta de mucunzá, Vivê pobre, sem dinhêro, Socado dentro do mato, De apragata currelepe, Pisando inriba do estrepe, Brocando a unha-de-gato. Você é muito ditoso, Sabe lê, sabe escrevê, Pois vá cantando o seu gozo, Que eu canto meu padecê. Inquanto a felicidade Você canta na cidade, Cá no sertão eu infrento A fome, a dô e a misera. Pra sê poeta divera, Precisa tê sofrimento....

Para Sempre

*   Carlos Drummond de Andrade Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho.

Diz o Meu Nome

* Mia Couto Diz o meu nome pronuncia-o como se as sílabas te queimassem                                   [os lábios sopra-o com a suavidade de uma confidência para que o escuro apeteça para que se desatem os teus cabelos para que aconteça Porque eu cresço para ti sou eu dentro de ti que bebe a última gota e te conduzo a um lugar sem tempo nem contorno Porque apenas para os teus olhos sou gesto e cor e dentro de ti me recolho ferido exausto dos combates em que a mim próprio me venci Porque a minha mão infatigável procura o interior e o avesso da aparência porque o tempo em que vivo morre de ser ontem e é urgente inventar outra maneira de navegar outro rumo outro pulsar para dar esperança aos portos que aguardam pensativos No húmido centro da noite di...

Tabacaria

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·      Fernando Pessoa Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus ...

A DICOTOMIA DOS PIRILAMPOS

·        Cleilson Pereira Ribeiro  Nesse verão,   não me cabe mais   falar aos passarinhos,                                    Pois estes, ficaram velhos            e já não voam mais,            quando em estado de palavra.            A solidão,                   definitivamente,                   Encruou minha voz, Que tinha gesto e força,                 ...