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Mostrando postagens de dezembro, 2018

RECEITA DE ANO NOVO

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* Carlos Drummond de Andrade Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)   Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as ...

PASSAGEM DO ANO

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* Carlos Drummond de Andrade O último dia do ano Não é o último dia do tempo. Outros dias virão E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, Farás viagens e tantas celebrações De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia E coral,   Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, Os irreparáveis uivos Do lobo, na solidão.   O último dia do tempo Não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida Onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, Uma mulher e seu pé, Um corpo e sua memória, Um olho e seu brilho, Uma voz e seu eco. E quem sabe até se Deus...   Recebe com simplicidade este presente do acaso. Mereceste viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.   Teu pai morreu, teu avô também. Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte, Mas estás vivo. Ainda uma vez está...

Será egoísmo?

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Gosto do gosto de gostar de quem gosta de mim. gosto de quem gosta do que eu gosto. Com isso não gosto do gosto de quem não gosta do que eu tenho por bom gosto.

os cavaleiros do vento

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Sonhei que eu era um rebelde cavaleiro Em tempos memoráveis lutado pela vida E não por terras, honras ou glorias. Cavalgando ao lado de outros três intrépidos sonhadores Em busca de uma luz que já não encontrávamos nos vitrais de uma catedral Segurando nas rédeas de belos corcéis Lusitanos cavalgamos a galope em uma praia desértica   em busca de um lugar que ainda não existe chamado Utopia. Sim, cavalguei ao lado de três nobres cavaleiros Um moreno como um Mouro e outro claro como um alentejano E um terceiro da cor do bronze como um índio guarani Olho para o lado e fito meus companheiros de cavalgada E vejo que se tratava do meu pai José e do meu avô Sebastião e do meu tio Miguel Neste instante acordo e não os vejo. Sim, já não os vejo mais, os meus companheiros de cavalgadas que se vão com o vento e como o vento. Mas, um eco vindo do meu ser me diz que o mundo que os cavaleiros do vento ao vento buscavam existe nos meus sonhos e que eles não...

Um estante fugaz

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Sempre a meia-noite, num estante fugaz, os fogos de artifícios nos anunciam que já estamos em um Ano Novo. Aí um novo caderno embranco de nossas existências se abre para que possamos escrever um novo roteiro para o drama, a aventura ou a comedia que se tornou as nossas vidas no roteiro anterior que hora fechamos suas páginas buscando o esquecimento ou guarda-las na mente com saudade sonhado repetir o sucesso no ano que vem alume reescrevendo-o com outra roupagem em outro momento mas buscando repetir tudo outra vez. Porém se seu roteiro do ano que se esvai como o brilho pálido dos últimos fogos que estouram no céu de trevas como as possibilidades igualmente escuras que se anunciam no horizonte incerto do novo ano, digo se seu roteiro foi uma meda, tente reescreve-lo usado um novo estilo, buscando torna-lo interessante mesmo em um ambiente hostil e desfavorável, der o seu melhor ao reescrever este novo ano. Não seja idiota de olhar apenas para o próprio umbigo. Saiba que a razão da exi...

No Meio do Caminho

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  Carlos Drummond de Andrade No meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho Tinha uma pedra No meio do caminho tinha uma pedra Nunca me esquecerei desse acontecimento Na vida de minhas retinas tão fatigadas Nunca me esquecerei que no meio do caminho Tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedra.

Dá-me a tua mão

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Dá-me a tua mão:  Vou agora te contar  como entrei no inexpressivo  que sempre foi a minha busca cega e secreta.  De como entrei  naquilo que existe entre o número um e o número dois,  de como vi a linha de mistério e fogo,  e que é linha sub-reptícia.  Entre duas notas de música existe uma nota,  entre dois fatos existe um fato,  entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam  existe um intervalo de espaço,  existe um sentir que é entre o sentir  - nos interstícios da matéria primordial  está a linha de mistério e fogo  que é a respiração do mundo,  e a respiração contínua do mundo  é aquilo que ouvimos  e chamamos de silêncio. * de  Clarice Lispector

A vida é fugaz

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Dê tempo ao tempo, Pois ao longo do tempo Tudo irá passar, não deixe nada solto ao vento, como a areia na praia que o vento sobra em sua cara. Não vacile e nem se esconda em sua carapaça existencial com medo do pé de vento que se formou em sua vida que hora como tornado   joga em sua cara os cacos de sonhos que você deixou para trás em sua vida. Relaxa, dê tempo ao tempo. Pois tudo passa até a dor mais aguda. Não deixe nada mal resolvido, Passe a limpo a sua história, Se preciso peça perdão, Não vacile, não esconda-se na sobra de seu orgulho ou de sua empáfia Perdoe sempre...   A vida passa. de José Cícero Gomes