Replantio


* (Cleilson Pereira Ribeiro: Para meu avô Pedro Pereira Lima)
A casa velha
dobra-se às imponderáveis
maquinações do tempo. Onde
antes a vida se enredava por itinerários cansados,
somente o pó do esquecimento
aniquilando
os traços da infância
e as esporádicas
simulações das chuvas
com Alzheimer.
Quando a tarde chega em meus olhos ,
É que a saudade – de fora para dentro -
Tenciona a trama
de um desenho triste,
Tatuado
pelas mãos de um fantasma atemporal
que fora aprisionado
para sempre em meu coração.
Revejo, então,
a terra calcinada ao longe,
e nela, acesa, a sombra antiga de meu avô.
Estranhos pássaros
atiram molinetes velhos
na carne do açude estorricado.
E ornamentam
a paisagem interior em que me abismo,
de menino.
Meus olhos profetizam
a caliça dos anos que se foram.
Uma beleza insólita
Enraíza-se em meu poema
Até ser transformada em festa,
mesmo sem pescas e sem palavras,
Capturada apenas pela fotografia
dos anzóis enferrujados
Por um tempo de ausências.
À época do plantio,
Celebro o pacto que fiz
com minha memória interdita.
E Escrevo teu nome, meu avô,
dentro da carne incendiada
das sementes
e te devolvo á vida,
como se devolve um peixe
á água premonitória
de sua essência,
na esperança de colher,
o sabor de seu trabalho
em novos frutos. 

* de Cleilson Pereira Ribeiro

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